Este pretende ser um "espaço" público de partilha de ideias, um espaço de comunicação...

30
Jun 15

Sou um guardador de rebanhos

O rebanho é os meus pensamentos,

E os meus pensamentos são todos sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

 

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

 

Por isso, quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto,

E me deito ao comprido na erva,

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,

Sei a verdade e sou feliz.

                                                        Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos

 

    Tal como para Alberto Caeiro, para o filósofo David Hume todas as nossas ideias, mesmo as mais complexas, têm origem nas impressões sensíveis. "Nada está no intelecto que não tenha estado primeiro nos sentidos". Quando, por exemplo, ouvimos o som de uma campainha, ou cheiramos uma flor, temos a impressão do som produzido pela campainha ou do odor da flor. Quando, mais tarde, nos recordamos do som da campainha ou do odor da flor, temos a ideia do som e do odor. A impressão é o estado de espírito que se experimenta perante um estímulo; a ideia é a representação que a nossa memória pode fazer de uma impressão já vivida.

   Significa isto que, para Hume, a impressão nos dá a realidade, ela é a própria realidade. Ao invés, a ideia só tem valor de verdade se proceder de uma impressão.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 01:18

               

      "Desprezo o que dizes, mas defenderei até à morte o teu direito a dizê-lo”.

       É com esta afirmação atribuída a Voltaire, filósofo do iluminismo francês, que Nigel Warburton principia o seu ensaio sobre Liberdade de Expressão. A liberdade de expressão – entendida num sentido amplo, onde se inclui a palavra escrita, as peças teatrais, os filmes, vídeos, as fotografias, os cartunes, as pinturas, entre outros – é um direito consagrado no artigo 19.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948).       

      A liberdade de expressão é particularmente valiosa numa sociedade democrática, ao ponto de haver, mesmo, quem sustente que na ausência de uma ampla liberdade de expressão nenhum governo seria de todo legítimo e não deveria ser denominado democrático. Esta é a perspetiva defendida por Ronald Dworkin, para quem “A livre expressão é uma das condições de um governo legítimo. As leis e políticas não são legítimas a menos que tenham sido adotadas por meio de um processo democrático, e um processo não é democrático se o governo impediu alguém de exprimir as suas convicções acerca de quais devem ser essas leis e políticas.”

       Desde os alvores da democracia ateniense que são sobejamente conhecidas as suas relações com a argumentação e a retórica.

       Porém, tal como a retórica e a argumentação podem ser postas ao serviço da mentira e da manipulação, também em relação à liberdade de expressão se coloca a questão dos seus limites. Não deve a liberdade de expressão ser restringida em circunstância alguma ou há limites para a livre expressão? Se há limites à livre expressão não corremos o risco da derrapagem que irá desembocar no totalitarismo?

       Estas e outras questões são tratadas no ensaio de Nigel Warburton, recentemente publicado pela Gradiva.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 00:24

03
Jun 15

Cyborg: de Cybernetics Organism (Organismo Cibernético)

No futuro os seres humanos vão transformar-se em ciborgues perfeitos. É o que defende um professor universitário que acredita que, nos próximos 200 anos, vai ocorrer “a maior evolução da biologia desde o aparecimento da vida”.

Yuval Noah Harari, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, considera que os seres humanos vão evoluir para uma quase nova espécie que será constituída por “ciborgues semelhantes a Deus“, conta o jornal Telegraph.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 12:39

01
Jun 15

          

                Desde Aristóteles que a racionalidade é considerada a propriedade moralmente relevante. Segundo o filósofo, é propósito do inferior servir o superior. Sendo assim, como os seres racionais são superiores aos irracionais, cabe a estes últimos o propósito de servir o Homem, enquanto animal racional.

                Seguindo a mesma linha de orientação, S. Tomás de Aquino postula que o homem, enquanto criatura racional, é o único ser a possuir valor intrínseco, enquanto os outros animais (não humanos) carentes de razão, possuem apenas um valor instrumental.

                Não pertencendo ao “reino dos fins”, como dirá Kant, os animais não humanos constituem-se como meros meios para servir os superiores interesses dos homens, dado que os animais não humanos carecem de racionalidade, a capacidade de raciocinar e de deliberar. Por isso, os animais não humanos não são agentes morais, não possuem estatuto moral.

                Acresce a este critério da racionalidade, o fundamento religioso (cristianismo) do domínio humano sobre os restantes animais não humanos.

               “No antigo testamento – escreve Ricardo Miguel em A Razão à Mesa – depois do criador dar origem ao céu, à terra, à luz e a todos os animais não humanos, surge a premissa que serve de base ao domínio humano sobre as restantes criaturas:

                Então Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança. Que ele domine os peixes do mar, as aves do céu, os animais domésticos, todas as feras e todos os répteis que rastejam a terra”.

                Em A Razão à Mesa – o Especismo na Alimentação Humana Padrão – Esfera do Caos, Ricardo Miguel discorre, numa perspetiva crítica, sobre o principal critério que sustenta a dominação humana sobre as restantes criaturas, o critério da razão.

                Afinal de contas, a mesma “razão” que torna possível “a alimentação humana padrão”, impede-nos, por exemplo, de comer os nossos animais de estimação:

              “Quando se considera a hipótese de alguém se alimentar da carne de um animal tipicamente de estimação, a moralidade (…) vem ao de cima”. Assim principiam, segundo Ricardo Miguel, as inconsistências ou incoerências da tese da amoralidade da alimentação. Como sustenta:

              “Alguém que tem um animal de estimação muito provavelmente terá preocupações morais com ele sem as ter com outros animais muito semelhantes pelo simples facto de não serem o seu animal de estimação. (…)

              As crianças podem gostar muito de ter animais por perto e os adultos por vezes não conseguem resistir aos pedidos delas para os ter lá por casa. Os coelhos são um exemplo de uma espécie de animais que as crianças gostam de ter. Mas porque lhes é dado um nome e uma casota, estes coelhos particulares merecem estar fora dos pratos, enquanto que os que se compram no talho ou no supermercado já não.”

                Afinal, como pensar a razão humana?

                Como o muro atrás do qual a humanidade fundamenta a sua dominação cruel sobre as outras criaturas viventes ou devemos pensar a razão como uma ponte entre todos os seres irmanados pela capacidade de sentirem dor e prazer?

 Poderá ler:

Os Animais Têm Direitos?

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 13:15

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