Este pretende ser um "espaço" público de partilha de ideias, um espaço de comunicação...

20
Nov 08

 Ver imagem em tamanho real«O esquecimento do mundo da vida está hoje patente no crescimento imparável da velocidade, que fascina a nossa idade técnica e tem sido investigada nos nossos dias pela Dromologia. Para P. Virilio, só quem foi veloz, pôde controlar o território, dominar e possuir. O nómada fez conquistas mas o cavaleiro veloz dominou-o e fez dos lavradores vassalos. Por isso, o binómio senhor-escravo está historicamente ligado à velocidade. A história do mundo é a eliminação sucessiva das forças mais fracas pelas mais velozes e, na sequência lógica desta interpretação, hoje a velocidade vencedora não é a dos automóveis ou a dos aviões mas a velocidade absoluta da luz, que subordinará totalmente o homem, preso de uma imobilidade mortal directamente proporcional à velocidade, que não possui (...).
Ao destino da inércia, da paralisia, da imobilidade está condenado o homem pela velocidade da luz, que mudará a essência da guerra, tornando-a pura, total, com velocidade ondulatória absoluta, sem vítimas, porque imobilizará o inimigo absolutamente incapaz de reacção. “Tudo tende para a paralisação, para a inércia” (M. Jakob / P. Virilio). É ilusório nos nossos dias o discurso sobre o novo nomadismo, porque é irresistível a tendência profunda para a imobilidade, a estática, a inércia, a deficiência: “O deficiente, que hoje passeia no seu carro – uma obra tecnológica admirável – é um pioneiro, pois o nosso futuro é sermos inválidos equipados com próteses” (M. Jakob / P. Virilio).
Quanto mais rápidos forem os meios de transporte, menos nos movemos e, por isso, o limite, para o qual hoje contribui o tacto e o olfacto à distância, é a paralisação, o estado patológico da imobilidade absoluta. Por isso, perdemos a experiência de caminho e de viagem, essencial à busca de sentido. Outrora a viagem constava de partida, de viagem propriamente dita e de chegada. Com o comboio e, sobretudo, o avião, a viagem foi progressivamente dominada pelo sentimento de chegada e tende a coincidir com esta, enquanto o tempo intercalar é tempo perdido, por vezes aproveitado para dormir ou ver um filme. No tempo da imobilidade gerada pela velocidade-limite, não nos movemos apenas fisicamente como na idade do automóvel, mas nem sequer teremos necessidade de sair de casa, pois toda a realidade nos será trazida ao domicílio e nós pagaremos, com a perda de mundo na sua extensão e duração, com o cárcere doméstico, a factura da imobilidade universal.»

Miguel Baptista Pereira, “A crise do mundo da vida no universo mediático contemporâneo”

in Revista Filosófica de Coimbra, 8 (1995) 273-6.

(Ver capa da Revista Filosófica de Coimbra, 8)

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 11:27

19
Nov 08

 

Em 2002, quando a UNESCO celebrou pela primeira vez o Dia da Filosofia, o objectivo que estava por detrás desta iniciativa era encorajar todos os povos de diferentes partes do mundo a partilharem a sua herança filosófica com outros e a abrirem os seus espíritos a novas ideias, promovendo um debate público entre intelectuais e a sociedade civil sobre os desafios que as nossas sociedades enfrentam hoje em dia.
Em 2005, o Dia da Filosofia ficou inscrito na lista dos Dias Mundiais proclamados pelas Nações Unidas. Marrocos foi o país que tomou a iniciativa de propor a proclamação de um Dia da Filosofia.
 

"A filosofia, juntamente com as outras ciências humanas e sociais, desempenha uma função essencial para nos ajudar a apreender de modo mais satisfatório a complexidade do nosso mundo, feito de interacções activas e dissimétricas, transferências e intercâmbios. Ela pode ter este papel ao interrogar de uma forma lúcida e exigente as nossas construções sociais da realidade, os nossos mundos imaginários, os nossos mitos e os nossos símbolos. Pode fazê-lo também explicando os dispositivos e mecanismos de racionalidade que dão origem às guerras, aos conflitos e aos sofrimentos, sem os reduzir a meras fatalidades.”
 
“Este dia deve ser dedicado ao diálogo e a encontros, e servir assim para estabelecer ou restabelecer entre as comunidades e nações os vínculos filosóficos e intelectuais às vezes quebrados, outras vezes esquecidos.”
Mensagem do Senhor Koïchiro Matsuura, Director-Geral da Unesco
Por ocasião do Dia Mundial da Filosofia – 16 de Novembro de 2006

 

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 21:42

18
Nov 08

«Foi a admiração que incitou os homens a filosofar: admiraram-se primeiro com o que lhes acontecia e lhes era estranho, depois, pouco a pouco, foram mais longe e inquiriram dos movimentos da lua, do Sol, dos astros e da criação do Universo .»

Aristóteles 

Ver Vídeo Nós Estamos Aqui: O Pálido Ponto Azul

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 16:40

17
Nov 08

Quando o amor domina

Um dos lugares da alta sociedade, em Étretat, era a pastelaria Lecoeur. Um dia entrou uma jovem desconhecida. Só pela sua aparição, pareceu-me que a cor do dia, e até a qualidade do ar, se transformava. Alta, esguia, reflexos dourados no cabelo e nos olhos, a tez rosada, os lábios tão cintilantes como a polpa de um fruto, aquela rapariga irradiava saúde, vida e alegria. Eu nunca tinha visto nada igual. Uma fada.

Desde então, só tinha uma ideia fixa: voltar a vê-la. Durante vários dias fui instalar-me na pastelaria. Não saía de lá. Hospedei-me lá. Passava os meus dias à espera dela. De olhar fixo na porta, comia bolos lentamente, cada vez mais lentamente, em pequeninas bocadas, migalha a migalha, para os fazer durar, a cada um, o máximo de tempo possível. Um palmier. Um éclair. Um friand. Outro éclair. Uma tarte. Um chou. Mais um palmier. Sentia náuseas. Raiava a indigestão. Mas por nada deste mundo sairia da pastelaria. Ai de mim! Ela não voltou. Uma vez, de longe, avistei-a na rua. E mais nada. Tinha-se ido embora. Não sabia quem ela era nem onde vivia. Tudo o que sabia dela era o nome: Odile.

 

JACOB, François, A Estátua Interior

 

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 21:29

14
Nov 08

Georges Charbonnier

- Nós, homens correntes, falamos de natureza e de cultura, muito vagamente. Você, homem da ciência, fala de natureza e de cultura. Definindo tais termos, que distinção podemos estabelecer entre natureza e cultura?

Claude Lévi-Strauss

- É a distinção fundamental para o etnólogo e muitas vezes um pouco embaraçosa entre nós. (...) A natureza é tudo o que há em nós por hereditariedade biológica; a cultura é, ao contrário, tudo o que possuímos da tradição externa (...) é o conjunto dos costumes, das crenças, das instituições como a arte, o direito, a religião, as técnicas da vida material, numa palavra,  todos os hábitos ou aptidões aprendidas pelo homem enquanto membro de uma sociedade. (...)

G. C.

- Qual o sinal que se admite como representativo da cultura? O sinal mais humilde?

C. L.-S.

- Durante muito tempo, pensou-se, e muitos etnólogos ainda pensam talvez que é a presença de objectos manufacturados. Definiu-se o homem como Homo Faber, fabricante de instrumentos, vendo neste aspecto a própria marca da cultura. Confesso que não estou de acordo e que um dos meus objectivos essenciais consistiu sempre em colocar a linha de demarcação entre cultura e natureza, não nos instrumentos, mas na linguagem articulada. É aí que verdadeiramente se realizou o salto; suponha que encontrávamos, num planeta desconhecido, seres vivos que fabricassem instrumentos; de qualquer forma não seria certo que fossem da ordem do humano. Na verdade, deparamos com tal facto no nosso globo, já que certos animais são capazes, até certo ponto, de fabricar instrumentos ou esboços de instrumentos. Contudo, não acreditamos que tenham realizado a passagem da natureza à cultura. Mas imagine que deparávamos com seres vivos que possuíssem uma linguagem, diferente da nossa quanto se quiser, mas que seria traduzível na nossa linguagem, seres pois com que pudessemos comunicar ...  (...) Estaríamos na ordem da cultura e não já na ordem da natureza.

 

In  G. Charbonnier, Entretiens avec Lévi-Strauss

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 23:36

13
Nov 08

Diz-se que a Filosofia é «o lugar crítico da razão», uma expressão algo pomposa. Mas o que quer isto dizer? Quer dizer que em Filosofia, (...) se exige aos estudantes que tomem uma posição crítica - e não apenas que compreendam o que dizem os especialistas, como é comum ao estudar Matemática ou História.

Imaginemos que vamos ao médico porque temos um problema complicado. Tão complicado que exige um estudo muito atento da parte do médico - e talvez diferentes médicos tenham diferentes opiniões sobre o nosso problema. Há dois tipos de reacções do médico que não desejamos. Não queremos que o médico se limite a dizer o que vem nas enciclopédias e livros de medicina; isso poderíamos nós fazer calmamente em casa. Queremos que o médico tome uma posição pessoal: que faça um diagnóstico. Mas também não queremos que tal diagnóstico seja feito na mais completa ignorância da ciência médica e sem qualquer reflexão por parte do médico: para ter palpites desses não iríamos ao médico, pois até o padeiro nos pode dar papites desse género. (...) Queremos uma opinião pessoal, certamente, mas uma opinião profissional, ou seja, uma opinião baseada 1) num conhecimento sólido de medicina e 2) numa reflexão sistemática do médico.

Alguns estudantes ficam surpreendidos quando descobrem que em Filosofia têm de dar a sua opinião, não se tratando apenas de compreender e explicar o que pensam os filósofos. Só que os estudantes têm muitas vezes uma ideia errada do tipo de opinião  que lhes é exigida. (...) No nosso caso, uma opinião é profissional quando se baseia num conhecimento amplo dos problemas, teorias e argumentos da Filosofia relevantes para o tema em causa, e quando resulta de uma reflexão sistemática. Isto não sigifica que não se possa concordar com um dado filósofo em relação a certo aspecto. Significa apenas que, se concordamos com ele, temos de dar razões para isso. E essas razões não podem consistir na mera repetição das razões do filósofo; ao invés, têm de resultar de uma opinião reflectida e têm de ser as nossas razões.

 

in Textos e Problemas de Filosofia, organização de Aires Almeida e Desidério Murcho

 

 

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 21:36

11
Nov 08

Os princípios lógicos são fundamentalmente dois: princípio de identidade e princípio de razão suficiente.

O primeiro regula o pensamento formal ou abstracto, isto é, desligado da realidade a que se possa aplicar; este princípio traduz o acordo do pensamento com ele próprio e desdobra-se em: princípio de não-contradição e princípio do terceiro excluído.

O princípio da razão suficiente orienta o pensamento concreto, integrado na realidade, tendo por fim a sua interpretação.

O princípio da identidade enuncia-se: o que é, é - A é A - uma coisa é idêntica a si mesma - uma coisa é o que é, tal qual é. O verdadeiro é o verdadeiro.

O princípio da não contradição exprime o princípio da identidade sob forma negativa e formula-se: uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto. A não pode ser A e não A. O verdadeiro não pode ser falso sob o mesmo aspecto.

O princípio do terceiro excluído resulta da expressão disjuntiva do princípio de identidade e enuncia-se: uma coisa é ou não é - entre o ser e o não ser não há meio termo.  A é A ou não é A. Uma proposição é verdadeira ou falsa.

Por fim, o princípio da razão suficiente costuma enunciar-se: tudo o que existe tem a sua razão de ser.

Os princípios podem ser abordados sob o ponto de vista lógico e/ou ontológico.

 

 

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 20:37

07
Nov 08

"Todo o acto inclui a necessidade de escolher entre vários actos possíveis. Esta escolha deve basear-se, por sua vez, numa preferência. Escolhemos a porque o preferimos pelas suas consequências a b ou c. Poderíamos dizer que a é preferível porque se nos apresenta como um comportamento mais digno, mais elevado ou, em poucas palavras, mais valioso. E, por conseguinte, deixamos de lado b e c, porque se nos apresentam como actos menos valiosos ou com um valor negativo."

In VAZQUEZ, Adolfo Sanches, Ética
 

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 22:38

05
Nov 08

A lei da Não-Contradição explicada através de uma piada clássica:


Um rabino está a efectuar uma audiência na sua aldeia.
Schmuel levanta-se e apresenta o seu caso, dizendo:
- Rabino, Itzak passa com as ovelhas pela minha terra todos os dias e está a destruir as minhas culturas. A terra é minha. Não é justo.
-Tens razão! - diz o rabino.
Itzak levanta-se imediatamente e declara:
- Mas, rabino, a única posssibilidade que as minhas ovelhas têm de beber água no lago é atravessando a terra dele. Sem água, morrerão. Durante séculos, todos os pastores tiveram direito de passagem pela terra que circunda o lago, por isso eu também devia ter.
- E o rabino diz:
- Tens razão!
A senhora da limpeza, que ouviu tudo isto, diz para o rabino:
- Mas, rabino, não podem ter ambos razão!
E o rabino replica:
- Tens razão!
A senhora da limpeza informou o rabino de que ele violou a Lei da Não-Contradição.

In: CATHCART, Thomas e KLEIN, Daniel, Platão e um Ornitorrinco Entram Num Bar ..., Dom Quixote, p. 42.
 

http://www.platoandaplatypus.com/index.php
- em termos simbólicos:  \neg (P \wedge \neg P).\,  
 

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 18:21

02
Nov 08

A vida do homem não pode "ser vivida" repetindo os padrões da espécie; é ele próprio - cada um de nós - quem deve viver. O homem é o único animal que pode estar aborrecido, que pode estar enojado, que pode sentir-se expulso do paraíso"

Erich Fromm, Ética e Psicanálise
 

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 10:05

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