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Café Majestic, Porto

Em relação à Europa, “não parece que se saiba de onde ela tirou o seu nome”, escreve Heródoto. A sua origem lendária afirma que «em Tiro (atual Líbano) vivia uma princesa que se chamava Europa. Era filha do rei Agenor. Uma noite teve um sonho: duas terras discutiam a respeito dela. Uma, a “Terra da Ásia”, queria ficar com ela, a outra, a “Terra em frente”, queria arrastá-la para o mar, por ordem do rei dos deuses, Zeus. A princesa quando acordou, foi colher flores à beira-mar. Um touro possante, mas meigo, surgiu das ondas e conseguiu que a princesa montasse no seu dorso. Depois, levantou voo e revelou-lhe que era Zeus metamorfoseado em animal. Levou-a para a grande ilha grega, Creta. Amaram-se e ela tornou-se “mãe de nobres filhos”» (LE GOFF, Jacques, A Europa Contada aos Jovens).

O que é ser europeu?

Em A Ideia de Europa, George Steiner esboça uma resposta à questão.

A especificidade da Europa torna-se mais evidente quando se compara com, por exemplo, a América. Em primeiro lugar, afirma Steiner, “a Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo”. Prosseguindo na senda da ideia de Europa, Steiner conclui: “Desenhe-se o mapa dos cafés e obter-se-á um dos marcadores da Ideia de Europa.”

Seguidamente, Steiner considera que “A Europa foi e é percorrida a pé. A cartografia europeia é determinada pelas capacidades, pelos horizontes percecionados dos pés humanos. Os homens e as mulheres europeus percorreram a pé os seus mapas.” Em contraste, na América do Norte, para não falar da Austrália ou da África, “não é possível ir a pé de uma cidade a outra”. Há obstáculos naturais praticamente intransponíveis. Por isso, o americano “sufoca” com os horizontes europeus.

Finalmente, a Europa é o “lugar da memória”. “As ruas, as praças calcorreadas pelas mulheres, crianças e homens são cem vezes mais designadas segundo estadistas, figuras militares, poetas, artistas, compositores, cientistas e filósofos.” Em contraste, “nos Estados Unidos, tais memoranda são escassos. As ruas são interminavelmente nomeadas como “Pine” (Pinheiro), “Maple” (Ácer), “Oak” (Caralho) ou “Willow” (Salgueiro). As grandes avenidas chamam-se “Sunset”, a mais nobre das ruas de Boston é conhecida como “Beacon” (Farol). (…) As avenidas, calçadas e ruas americanas são simplesmente numeradas ou conhecidas pela sua orientação, como em Washington, sendo o número seguido de “North” ou “West””.

Ver a europa como o lugar da memória parece exprimir a ideia da História como o mito do Ocidente, como defende José María Mardones em O Retorno do Mito, para quem a vivência da realidade própria da nossa cultura ocidental é a histórica. Assim, as coisas têm sentido se se situam no horizonte histórico. Nós,  europeus, vivemos numa espécie de projeto constante, projeto esse a que a morte parece irremediavelmente pôr termo, frustrar os nossos sonhos.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 00:03

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