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Carlo Strenger dirige o programa de pós graduações clínicas do Departamento de Psicologia da Universidade de Telavive. Integra o seminário de psicanálise existencial em Zurique. A sua pesquisa incide sobretudo no impacto da globalização na identidade e significado.

Strenger descarta em O Medo da Insignificância (Lua de Papel) a associação entre o terrorismo suicida e a psicopatia. Segundo o autor, “as entrevistas minuciosas a bombistas suicidas não encontraram qualquer psicopatia que permitisse a previsão sobre quem se iria tornar um bombista suicida”. Segundo Strenger, a marca distintiva na transição entre ser-se somente um animal mais inteligente e ser-se distintamente humano reside na seguinte descoberta: a aquisição da noção da morte e a consciência de que todos iremos morrer. Ao longo do século XX, a filosofia existencialista defendeu que a tomada de consciência da finitude está no centro da existência humana, especialmente Martin Heidegger e Jean-Paul Sartre. A consciência da finitude e a liberdade geram a ansiedade existencial e o ser humano passa a maior parte do tempo a evitá-la. Em vez de estarmos conscientes da liberdade e da finitude, vivemos como se não existissem escolhas, como se o costume, as normas sociais, as expectativas e a opinião determinassem completamente o modo como vivemos. Assim, a inautenticidade é uma defesa que nos permite viver a nossa vida sem sermos invadidos pela ansiedade.

Ainda segundo Strenger, “nas últimas décadas o existencialismo deixou de estar na moda porque a sua ênfase na dimensão trágica da vida humana não se coadunou bem com o otimismo irrazoável de uma cultura que difundiu a ideia de que a ansiedade era para os fracos de espírito e que devia ser tratada com fármacos”. Assim, o existencialismo foi relegado para os arquivos da história intelectual. Entretanto, Irvin Yalom mostrou que o existencialismo fornecia uma estrutura válida para a prática clínica e Ernest Becker reformulou algumas ideias nucleares do existencialismo, defendendo que, tal como o outros animais, temos terror de tudo aquilo que leva à nossa morte. Porém, contrariamente às outras espécies animais, nós conhecemos a nossa morte e, ainda segundo Becker, a negação da morte é uma das motivações mais fortes da espécie humana. A questão é: como podemos negar aquilo que conhecemos? Por intermédio das visões de mundo, com duas funções: a) fornecerem-nos sentido; b) proteger-nos, proporcionando-nos a experiência de sermos parte de um todo maior (religião, nação ou raça). Não somos verdadeiramente capazes de aceitar que vamos morrer e investimos uma grande quantidade de energia a negar a morte e a negação da morte constitui uma das motivações mais fortes da psique humana.

As visões de mundo fornecem-nos, segundo Becker, a imortalidade simbólica. Cada visão de mundo afirma que o grupo e a sua missão na terra subsistirão para além da morte individual. Ao contribuirmos para o grupo maior, para a sua tarefa na terra e para a sua continuidade, sentimos que algo de nosso irá sobreviver à nossa morte física, diminuindo, também, o sentimento de sermos partículas insignificantes num universo para o qual somos indiferentes.

Por isso, a negação da morte é responsável pelas maiores realizações e por algumas das suas características mais abomináveis. Comportamentos tão diferentes como construir catedrais, escrever literatura e criar arte, mas também o despoletar das guerras e os bombardeamentos suicidas, estão relacionados com a nossa necessidade de nos defendermos contra a mortalidade. Tal justifica, segundo Strenger, os atentados de 11/09. Os seres humanos desejam perder as suas vidas e matar milhares de pessoas inocentes por uma razão apenas: preservar a visão de mundo que lhes fornece sentido.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 19:52

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