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Mar 14

                Amor e Morte, que relação?

                Na nossa cultura herdeira, de resto, do platonismo e do cristianismo, o amor anda associado à imortalidade e à superação do efémero. Neste ponto, o amor distingue-se quer da morte quer do desejo erótico e do carpe diem que caracterizam o estádio estético da existência, como notou Soren Kierkegaard. Apercebendo-se da brevidade do prazer carnal, D. Juan sente-se compelido a dar o “salto” para um outro estádio existencial, o estádio ético, deixando para trás o celibato e as aventuras sexuais, na convicção de ver, assim, ultrapassadas a vida leviana de prazer, vivida num presente à superfície de si mesmo, e o medo e a angústia de perder o deleite fugaz.

                 A Morte, como entendê-la?

                François Mitterrand, no prefácio a Diálogo Com a Morte (Marie Hennezel, Casa das Letras), afirma que “vivemos num mundo aterrado por esta interrogação, e que lhe vira as costas. Houve, antes da nossa, civilizações que encaravam a morte de frente”, para, de seguida concluir: “talvez que nunca a relação coma morte tenha sido tão pobre como nestes tempos de aridez espiritual, em que os homens, na pressa de existir, parecem sofismar o mistério.”

                Na mesma linha de pensamento, Michel Foucault desenvolve em Des Espaces Autres,  o conceito de heterotopia.

                Por oposição às u-topias, “as heterotopias são lugares que estão fora de todos os lugares, mas que no entanto são localizáveis” (Filomena Silvano, Antopologia do Espaço, Assírio e Alvim).

                Foucault constata a universalidade das heterotopias, exemplificando com as sociedades ditas primitivas, possuidoras de heterotopias de crise. Nestas sociedades as mulheres menstruadas ou em parto, os velhos ou outros, situam-se em lugares reservados e interditos, por se encontrarem em estado de crise. Defendendo a ideia segundo a qual as heterotopias de crise têm desaparecido na nossa sociedade, Foucault considera, no entanto, que ainda aparecem lugares que manifestam as suas características, como por exemplo, o colégio, o serviço militar ou ainda os hotéis das viagens de núpcias.

                Entretanto, as heterotopias de crise foram sendo substituídas pelas heterotopias de desvio, que constituem os lugares onde hoje se colocam os indivíduos com um comportamento considerado socialmente a-normal: hospitais psiquiátricos, prisões, lares da terceira idade.

                Este último exemplo parece ser elucidativo do modo como as nossas sociedades encaram a velhice e, enfim, a morte.

                Com efeito, até ao fim do século XVIII, o cemitério situava-se no coração das povoações, ao lado da igreja, ou mesmo no seu interior. Em certo sentido, bem se pode dizer que se encarava a morte de frente, como refere Mitterrand no prefácio da obra citada.

                Porém, a partir do século XIX, o cemitério sai da cidade, ocupando espaços periféricos. Com a denominada dessacralização da sociedade, o cemitério deixa de constituir o “vento sagrado e imortal da cidade” para dar forma a uma “outra cidade”, exterior.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 22:54

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