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Nov 13

 

Janela Indiscreta, imagem do filme de Alfred Hitchcock

 

Por que havemos de ser morais?

Uma das possíveis respostas para a questão apresentada é a crença religiosa num ser transcendente, Deus. Afinal, “Se Deus não existe, tudo é permitido!”, como asseverava Dostoiévsky em Os Irmãos Karamazov. Da existência de Deus à legitimação teológica da moral decorre um pequeno passo. O reconhecimento social do que é correto ou incorreto, justo ou injusto, bem ou mal, procede, nesta perspetiva, da crença na autoridade da vontade de um ser sobrenatural. Para os crentes, Deus assemelha-se ao Big Brother que, através do Seu olhar omnipotente omnipresente e omnisciente, tudo observa a todo o momento e em qualquer local. Nem um hipotético ser invisível consegue furtar-se ao “olhar” divino e, como tal, permanece sujeito à retribuição divina.

Quando Dostoiévsky argumenta: “Se Deus não existe, tudo é permitido. Ora, nem tudo é permitido, e, por isso, Deus existe”, a sua conclusão é válida do ponto de vista lógico-formal. Cometeria a falácia da negação do antecedente ao deduzir da “Existência de Deus” que “Nem tudo é permitido”.

Apesar de tudo, a premissa maior “Se Deus não existe, tudo é permitido!” é refutável. Trata-se, pois, de uma premissa meramente provável, discutível e que conduz a conclusões que, embora legítimas em termos formais, são discutíveis no que se refere ao seu conteúdo material.

Encontramo-nos, por isso, no domínio da retórica e da argumentação.

Para muitos, como os existencialistas da corrente ateísta, inversamente a Dostoiévsky, afirmam perentoriamente que Deus não existe e, por isso, tudo é permitido. "Estamos sós e sem desculpas, condenados a ser livres" (Sartre).

Assim sendo, a pergunta persiste: por que razão havemos de ser morais?

Ainda que sem Deus, estaremos na realidade sós?

Será o olhar do “outro” o guardião dos atos socialmente aceites? Se o “outro” não existisse ou se, existindo, tivéssemos a propriedade da invisibilidade? Continuaríamos a ser agentes dotados de consciência moral? Qual, afinal, a natureza da consciência moral? Prevalecem nela elementos racionais, afetivos ou sociais? Neste último caso, pode ainda problematizar-se se “a consciência é os outros no fundo de nós” ou se é apenas, de uma forma simplista, “a voz da vizinha”.

Na vida real, como na Janela Indiscreta de Alfred Hitchcock, pode sempre haver um "fotógrafo profissional" confinado ao seu apartamento que, por qualquer motivo, vasculha a vida dos seus vizinhos com uma lente teleobjetiva.

Porém, tal suposição será suficiente para fundamentar a moralidade?

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 18:49

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