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Nov 13

Dilema=argumento de dois gumes (sylogismus cornutus)

 

A revista The Reader's Digest quis avaliar a honestidade dos habitantes de várias cidades do mundo. Para o efeito, foram deliberadamente lançadas para o chão doze carteiras com o intuito de observar a reação dos transeuntes. A capital portuguesa foi a cidade menos honesta: das 12 carteiras "perdidas", só uma foi devolvida, por um turista do Norte da Europa!

O estudo incide sobre a questão da moralidade. Afinal, por que razão havemos de ser morais? Por que razão devem as pessoas devolver – ou não – as carteiras aos respetivos proprietários?

Muitos consideram a religião o fundamento da moralidade. Sustentam que devemos ser morais porque, caso contrário, poderemos ser severamente punidos por Deus, um Ser omnipotente e omnisciente.

Uma moral assim concebida caracteriza-se pela heteronomia, dado que os alicerces que a sustentam têm uma origem externa ao indivíduo e à sua racionalidade.

Porém, esta perspetiva não deixa de suscitar problemas de difícil solução.

Um desses problemas pode ser formulado da seguinte forma: uma ação é boa porque Deus a aprova ou Deus aprova uma ação por ser boa?

Trata-se de um dilema. Um dilema é uma situação que supõe uma escolha problemática, em que apenas existem duas respostas possíveis, nenhuma das quais racionalmente satisfatória.

O presente dilema foi pela primeira vez apresentado no diálogo Eutífron, de Platão.

Ora, caso se considere que uma ação é boa porque Deus a aprova, equivale a pensar que o que é bom ou mau, correto ou errado não o é intrinsecamente. Equivale a pensar que o que é bom ou mau, correto ou incorreto é-o de um modo contingente, arbitrário, dado depender exclusivamente da vontade divina. Assim sendo, devolver uma carteira constitui uma ação correta apenas porque Deus assim pensa. Porém, poderia pensar de modo diverso.

Em contrapartida, caso se opte pela segunda alternativa e se considere que Deus aprova uma ação por ser boa em si mesma, então as coisas ou as ações que são boas ou más são-no independentemente do que Deus pense delas. Mas neste caso Deus não pode ser o fundamento da moralidade.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 00:16

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