Este pretende ser um "espaço" público de partilha de ideias, um espaço de comunicação...

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Set 13

  

Miguel Ângelo, A Criação do Homem

 

Em Ter ou Ser (editorial Presença, p. 32) Erich Fromm afirma, a propósito da palavra “ter”, o seguinte:

 

Todo o ser humano teve sempre alguma coisa: um corpo, roupas, um abrigo – até ao homem moderno que tem um carro, um aparelho de televisão, uma máquina de lavar, etc … Viver sem possuir qualquer coisa é totalmente impossível. Por que motivo o “ter” constituirá, então, um problema?

 

 Analisando a questão numa perspetiva histórico-linguística, Fromm acrescenta:

 

Para aqueles que acreditam que “ter” é a forma mais natural da existência humana, poderá ser uma surpresa descobrirem que muitas línguas não possuem nenhum termo equivalente a ter.

  

Tal é o caso do hebraico.

 

Este pequeno exemplo parece demonstrar que em cada língua está plasmada ou materializada uma visão particular do mundo, uma conceção do mundo, como defendem Herder – discípulo de Kant – e Humboldt.

Como tal, percecionamos o mundo a partir da linguagem e a língua é utilizada não só para transmitir informações mas também para expressar uma perspetiva do mundo, como demonstraram os etnolinguistas Eduard Sapir e Benjamin Lee Whorf nas suas observações in loco dos índios Hoppi.

Deste modo, podemos concluir que o “mundo real” é construído, de modo inconsciente, através dos padrões linguísticos do grupo humano a que se pertence.

Esta forma de encarar a linguagem é análoga à corrente hermenêutica da filosofia desenvolvida por Heidegger e Gadamer.

Entre o homem pensante, o sujeito, e o mundo em si, o objeto, a moderna hermenêutica coloca a linguagem. 

O que conhecemos, conhecemo-lo pela mediação da linguagem.

Tal significa, à maneira Kantiana, que não conhecemos “as coisas em si” mas apenas como andam ditas na linguagem, na sua configuração linguística e cultural (a linguagem é a casa do ser).

Martin Heidegger foi o primeiro a contestar a tradicional maneira de ver o conhecimento como uma representação das coisas na consciência. Segundo ele, não existe dualidade sujeito – objeto. Apenas existem dois planos: o do ser (objeto, mundo) e o da linguagem (palavra). O ser não vem à palavra pela mediação da ideia, como se esta lhe fosse anterior. O dizer-se do ser identifica-se com o próprio ser.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 20:09

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