Este pretende ser um "espaço" público de partilha de ideias, um espaço de comunicação...

16
Ago 13

Salvador Dali, Rapariga de pé à janela

“Alguma vez se interrogou sobre o que poderá pensar um recém-nascido? Eis um ser humano que nunca viu nada, quase nada ouviu e que, imerso no calor do líquido amniótico, sentiu um tocar uniforme. Ele não conhece nem os odores, nem os gostos.”

É nestes termos que Nayla Farouki, O Que é Uma Ideia, introduz o problema da origem do conhecimento ou, para usar a sua terminologia, da origem das ideias.

O problema exposto pela filósofa libanesa constitui uma das questões centrais no âmbito da gnosiologia – a tradição anglo-saxónica emprega a palavra epistemologia, em vez de gnosiologia, para se referir aos problemas quer do conhecimento em geral, quer do conhecimento científico, em particular – a par de outras questões, como a da possibilidade e da natureza ou essência do conhecimento.

Dado que o sujeito que conhece é um ser dual, composto por um corpo e, simultaneamente, por uma “alma”, entendimento ou cognição, daqui decorre o problema de saber qual dos dois polos tem a preponderância, ou mesmo a exclusividade, no ato de conhecer a realidade.

Ou, como expõe J. Hessen em Teoria do Conhecimento:

“O homem é um ser espiritual e sensível. Por conseguinte distinguimos um conhecimento espiritual e um conhecimento sensível. A fonte do primeiro é a razão; a do último a experiência. Pergunta-se de que fonte tira principalmente os seus conteúdos a consciência cognoscente. É a razão ou é a experiência a fonte e a base do conhecimento humano?”

Este é o problema da origem do conhecimento.

São conhecidas as respostas radicais ao referido problema.

De um lado da barricada, examinando a génese psicológica das ideias, os empiristas concluem que é a experiência sensorial a fonte ou origem de todas as nossas ideias; do outro lado da trincheira, os racionalistas advogam que um conhecimento digno desse nome deverá obedecer a dois requisitos:

a) ser necessário, do ponto de vista lógico;

b) ser válido universalmente.

Ora, concluem os racionalistas que só a razão ou o pensamento poderá suprir essas exigências.

É curioso observar que as diversas correntes da Psicologia científica ora se fundamentam em teorias empiristas, ora em teorias racionalistas.

Veja-se o exemplo do behaviorismo e a sua fundamentação empirista.

É célebre a afirmação do psicólogo comportamentalista, J. Watson:

"Dêem-me uma dúzia de crianças sadias, bem constituídas e a espécie de mundo que preciso para as educar, e eu garanto que, tomando qualquer uma delas, ao acaso, prepará-la-ei para se tornar um especialista que eu selecione: um médico, um comerciante, um advogado e, sim, até um pedinte ou ladrão, independentemente dos seus talentos, inclinações, tendências, aptidões, assim como da profissão e da raça dos seus antepassados."

O que o fundador da Psicologia científica pretende mostrar é que somos o que fazemos e fazemos aquilo que o meio nos faz fazer.

É sabido que o meio nos fornece estímulos e são, segundo os psicólogos comportamentalistas, esses estímulos provenientes do meio que moldam o sujeito, desempenhando um papel fundamental no seu desenvolvimento. O indivíduo é um elemento passivo.

Fazendo uso da metáfora do computador, o indivíduo é apenas um recipiente passivo das influências ambientais. O computador não realiza nada sem a informação prévia do utilizador.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 01:18

Embora foques diversas problemáticas no teu artigo, lembrei-me de uma conversa que tivemos há tempos sobre a questão do conhecimento:

O conhecimento é um fenómeno psicológico ou biológico? Ou ambivalente?
O cérebro é ou não o único lugar do conhecimento? Será que qualquer membro do nosso corpo também o é?

É estranho e sintomático o caso das pessoas que sofrem um transplante, e que passam a ter memórias que não são suas, mas sim das pessoas de quem receberam os órgãos.
Daí que em muitos países se esteja a discutir a obrigatoriedade do registo criminal dos dadores de órgãos, de forma a rejeitar os órgãos de pessoas “indesejadas”.

Isto reforça a tese de que o conhecimento não é exclusivamente psicológico nem exclusivamente cerebral.

Abraço e continuação de boas férias
Paulo Ribeiro a 16 de Agosto de 2013 às 18:02

Paulo,
À luz dos atuais conhecimentos científicos parece claro que o SNC - em particular o córtex cerebral - desempenha um papel central nos processos mentais, nomeadamente: nos processos cognitivos (aprendizagem, memória e perceção), bem como nos processos emocionais.
A ciência aponta para os fundamentos biológicos desses processos e do comportamento em geral. Isto não significa que esses fundamentos sejam exclusivos. Haverá que ter, também, em consideração os fatores sociais e culturais.
A questão que colocas relativa aos transplantes é recente e de facto enigmática, apontando para a possibilidade de uma memória celular.
Do ponto de vista filosófico, o problema do conhecimento pode ser colocado em termos metafísicos. Por exemplo: será a realidade independente do sujeito cognoscente? O ser das coisas reduz-se a serem percebidas? Será o objeto do conhecimento imanente ou transcendente ao sujeito cognoscente? etc...

Cumprimentos,
CSilva

Paulo, a propósito da memória celular:


A teoria, conhecida como "memória celular", foi tema de um livro escrito por Pearsall chamado "The Heart’s Code" ou "O Código do coração". Nesse livro ele descreve a experiência de diversos transplantados, como a história de uma menina de dez anos que recebeu o coração de outra de oito, poucas horas depois de esta ter sido assassinada. Tempos depois, ao fim de uma sucessão de pesadelos, ela "reviveu" a cena fatal de sua doadora - o rosto do assassino, uma arma, um lugar. A polícia foi informada e capturou o criminoso, que confessou tudo.


Apesar das pesquisas, o assunto não encontra opinião unânime dentro da comunidade científica.




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