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Jun 13

Cinismo e Mundo Atual. Que relação?

Na atualidade, ninguém poderá sentir-se lisonjeado com o epíteto de cínico, o que é perfeitamente compreensível.

Atribuir a alguém tal adjetivo, com o intuito de o caracterizar, significa atribuir-lhe a prática e/ou ditos imorais, impudicos ou mesmo escandalosos.

Como tal, um cínico é alguém pouco recomendável, dado tratar-se de um desavergonhado ou um devasso.

Curiosa é a evolução semântica do termo “cínico” e aquilo que foi representando ao longo dos tempos.

Na antiguidade clássica, ser cínico significava abraçar uma filosofia de vida.

Esta filosofia de vida caracterizava-se, sobretudo, pelo desprezo em relação às convenções, leis e normas sociais.

Para os cínicos, a liberdade só poderia alcançar-se através da auto-suficiência.

O verdadeiro cínico, nunca seria "escravo" das suas necessidades físicas e emotivas, nunca recearia a fome, o frio, a solidão, nem mesmo sentiria qualquer desejo de sexo, dinheiro, poder ou glória.

O ideal do cínico clássico é o “regresso à natureza”. Em consonância com esse ideal, o cínico dorme em qualquer lado como um mendigo ou mesmo como um “cão”, sob o pretexto de que toda a terra é sua.

Por isso, pode dizer-se que são os primeiros hippies e punks da história da humanidade.

Ser-se cínico era, em suma, uma opção de vida, uma recusa da "civilização".

Decorridos mais de vinte séculos desde os primeiros cínicos, pelas artérias das nossas cidades – supostamente “civilizadas” – vagueiam e deambulam, em quantidade crescente, mendigos e sem-abrigos.

Porém, entre estes últimos e os primeiros “cínicos”, há uma diferença substancial.

Ser “cínico” constituía uma opção de vida, uma manifestação contra os valores e as convenções da sociedade;

"ser" mendigo, hoje, não constitui uma opção nem uma filosofia de vida. É antes uma fatalidade, uma desventura a que são votados muitos cidadãos, em virtude de uma sociedade cada vez mais hipócrita, insensível e cínica.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 20:47

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