Este pretende ser um "espaço" público de partilha de ideias, um espaço de comunicação...

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Nov 08

 Ver imagem em tamanho real«O esquecimento do mundo da vida está hoje patente no crescimento imparável da velocidade, que fascina a nossa idade técnica e tem sido investigada nos nossos dias pela Dromologia. Para P. Virilio, só quem foi veloz, pôde controlar o território, dominar e possuir. O nómada fez conquistas mas o cavaleiro veloz dominou-o e fez dos lavradores vassalos. Por isso, o binómio senhor-escravo está historicamente ligado à velocidade. A história do mundo é a eliminação sucessiva das forças mais fracas pelas mais velozes e, na sequência lógica desta interpretação, hoje a velocidade vencedora não é a dos automóveis ou a dos aviões mas a velocidade absoluta da luz, que subordinará totalmente o homem, preso de uma imobilidade mortal directamente proporcional à velocidade, que não possui (...).
Ao destino da inércia, da paralisia, da imobilidade está condenado o homem pela velocidade da luz, que mudará a essência da guerra, tornando-a pura, total, com velocidade ondulatória absoluta, sem vítimas, porque imobilizará o inimigo absolutamente incapaz de reacção. “Tudo tende para a paralisação, para a inércia” (M. Jakob / P. Virilio). É ilusório nos nossos dias o discurso sobre o novo nomadismo, porque é irresistível a tendência profunda para a imobilidade, a estática, a inércia, a deficiência: “O deficiente, que hoje passeia no seu carro – uma obra tecnológica admirável – é um pioneiro, pois o nosso futuro é sermos inválidos equipados com próteses” (M. Jakob / P. Virilio).
Quanto mais rápidos forem os meios de transporte, menos nos movemos e, por isso, o limite, para o qual hoje contribui o tacto e o olfacto à distância, é a paralisação, o estado patológico da imobilidade absoluta. Por isso, perdemos a experiência de caminho e de viagem, essencial à busca de sentido. Outrora a viagem constava de partida, de viagem propriamente dita e de chegada. Com o comboio e, sobretudo, o avião, a viagem foi progressivamente dominada pelo sentimento de chegada e tende a coincidir com esta, enquanto o tempo intercalar é tempo perdido, por vezes aproveitado para dormir ou ver um filme. No tempo da imobilidade gerada pela velocidade-limite, não nos movemos apenas fisicamente como na idade do automóvel, mas nem sequer teremos necessidade de sair de casa, pois toda a realidade nos será trazida ao domicílio e nós pagaremos, com a perda de mundo na sua extensão e duração, com o cárcere doméstico, a factura da imobilidade universal.»

Miguel Baptista Pereira, “A crise do mundo da vida no universo mediático contemporâneo”

in Revista Filosófica de Coimbra, 8 (1995) 273-6.

(Ver capa da Revista Filosófica de Coimbra, 8)

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 11:27

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