Este pretende ser um "espaço" público de partilha de ideias, um espaço de comunicação...

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Nov 08

Georges Charbonnier

- Nós, homens correntes, falamos de natureza e de cultura, muito vagamente. Você, homem da ciência, fala de natureza e de cultura. Definindo tais termos, que distinção podemos estabelecer entre natureza e cultura?

Claude Lévi-Strauss

- É a distinção fundamental para o etnólogo e muitas vezes um pouco embaraçosa entre nós. (...) A natureza é tudo o que há em nós por hereditariedade biológica; a cultura é, ao contrário, tudo o que possuímos da tradição externa (...) é o conjunto dos costumes, das crenças, das instituições como a arte, o direito, a religião, as técnicas da vida material, numa palavra,  todos os hábitos ou aptidões aprendidas pelo homem enquanto membro de uma sociedade. (...)

G. C.

- Qual o sinal que se admite como representativo da cultura? O sinal mais humilde?

C. L.-S.

- Durante muito tempo, pensou-se, e muitos etnólogos ainda pensam talvez que é a presença de objectos manufacturados. Definiu-se o homem como Homo Faber, fabricante de instrumentos, vendo neste aspecto a própria marca da cultura. Confesso que não estou de acordo e que um dos meus objectivos essenciais consistiu sempre em colocar a linha de demarcação entre cultura e natureza, não nos instrumentos, mas na linguagem articulada. É aí que verdadeiramente se realizou o salto; suponha que encontrávamos, num planeta desconhecido, seres vivos que fabricassem instrumentos; de qualquer forma não seria certo que fossem da ordem do humano. Na verdade, deparamos com tal facto no nosso globo, já que certos animais são capazes, até certo ponto, de fabricar instrumentos ou esboços de instrumentos. Contudo, não acreditamos que tenham realizado a passagem da natureza à cultura. Mas imagine que deparávamos com seres vivos que possuíssem uma linguagem, diferente da nossa quanto se quiser, mas que seria traduzível na nossa linguagem, seres pois com que pudessemos comunicar ...  (...) Estaríamos na ordem da cultura e não já na ordem da natureza.

 

In  G. Charbonnier, Entretiens avec Lévi-Strauss

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 23:36

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