Este pretende ser um "espaço" público de partilha de ideias, um espaço de comunicação...

28
Set 13

Sono, Salvador Dali

 

Erich Fromm confronta no seu ensaio Ter ou Ser?  duas formas ou modos de existência antagónicos.

De um lado, o modo Ser de existência; do outro, o modo Ter.

Tal não significa que ter seja patológico.

Afinal, como refere o autor, o homem sempre teve alguma coisa e viver sem possuir qualquer coisa é totalmente impossível.

O problema reside numa certa alienação inconsciente.

Assim, por exemplo, quando certo paciente diz ao médico ou ao psicanalista: “Doutor, tenho um problema, tenho insónias, e apesar de ter uma boa casa, tenho muitas preocupações”, o seu discurso denota um predominante grau de alienação.

Com efeito, ninguém tem um problema, como quem tem um relógio ou uma caneta.

Um problema não é um objeto que se possa ter.

O discurso mais apropriado seria referir ao psicanalista que “está preocupado”.

Analogamente, ninguém tem insónias, simplesmente “não consegue dormir”.

Poderá parecer insignificante mas ao referir que “tem um problema”, o paciente elimina a experiência subjetiva e transforma o seu sentimento em qualquer coisa que possui.

Do mesmo modo, uma insónia não é uma sensação física que se possa ter como uma dor de dentes ou uma faringite. A insónia é um estado de espírito.

Este estilo de discurso é recente e exemplifica, segundo Fromm, o modo Ter de existência.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 22:33

19
Set 13

  

Miguel Ângelo, A Criação do Homem

 

Em Ter ou Ser (editorial Presença, p. 32) Erich Fromm afirma, a propósito da palavra “ter”, o seguinte:

 

Todo o ser humano teve sempre alguma coisa: um corpo, roupas, um abrigo – até ao homem moderno que tem um carro, um aparelho de televisão, uma máquina de lavar, etc … Viver sem possuir qualquer coisa é totalmente impossível. Por que motivo o “ter” constituirá, então, um problema?

 

 Analisando a questão numa perspetiva histórico-linguística, Fromm acrescenta:

 

Para aqueles que acreditam que “ter” é a forma mais natural da existência humana, poderá ser uma surpresa descobrirem que muitas línguas não possuem nenhum termo equivalente a ter.

  

Tal é o caso do hebraico.

 

Este pequeno exemplo parece demonstrar que em cada língua está plasmada ou materializada uma visão particular do mundo, uma conceção do mundo, como defendem Herder – discípulo de Kant – e Humboldt.

Como tal, percecionamos o mundo a partir da linguagem e a língua é utilizada não só para transmitir informações mas também para expressar uma perspetiva do mundo, como demonstraram os etnolinguistas Eduard Sapir e Benjamin Lee Whorf nas suas observações in loco dos índios Hoppi.

Deste modo, podemos concluir que o “mundo real” é construído, de modo inconsciente, através dos padrões linguísticos do grupo humano a que se pertence.

Esta forma de encarar a linguagem é análoga à corrente hermenêutica da filosofia desenvolvida por Heidegger e Gadamer.

Entre o homem pensante, o sujeito, e o mundo em si, o objeto, a moderna hermenêutica coloca a linguagem. 

O que conhecemos, conhecemo-lo pela mediação da linguagem.

Tal significa, à maneira Kantiana, que não conhecemos “as coisas em si” mas apenas como andam ditas na linguagem, na sua configuração linguística e cultural (a linguagem é a casa do ser).

Martin Heidegger foi o primeiro a contestar a tradicional maneira de ver o conhecimento como uma representação das coisas na consciência. Segundo ele, não existe dualidade sujeito – objeto. Apenas existem dois planos: o do ser (objeto, mundo) e o da linguagem (palavra). O ser não vem à palavra pela mediação da ideia, como se esta lhe fosse anterior. O dizer-se do ser identifica-se com o próprio ser.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 20:09

14
Set 13
René Magritte, O Espelho Falso
Como observou Aristóteles, a voz humana é o veículo privilegiado de valores que ultrapassam a simples sensibilidade individual e que possibilitam a organização de uma vida em comum. Como tal, a linguagem é atravessada, ainda segundo o estagirita, pela dimensão política (polis = cidade).

Até este ponto, estamos todos de acordo. No entanto, qual o papel da linguagem? Qual o seu estatuto e a sua função?

O senso comum encara realisticamente a linguagem – tal como, de resto, Aristóteles. Encarar realisticamente a linguagem significa defender que, desde que bem utilizada, ela pode espelhar fielmente a realidade – metáfora do espelho. A tradição filosófica encara a anterioridade do pensamento e do conhecimento em relação à linguagem como um dado natural. Além de anteriores, pensamento e conhecimento são – na perspetiva tradicional – independentes em relação à linguagem. Assim sendo, a linguagem tem, segundo esta perspetiva, uma função meramente instrumental: pelas palavras exteriorizamos as ideias previamente conhecidas e pensadas na nossa consciência. As ideias, por sua vez, são a representação, no sujeito, da realidade que está diante dele, da realidade exterior, do objectum.

Este modo tradicional de ver e encarar as relações entre linguagem, pensamento e conhecimento não é, no entanto, consensual. Richard Rorty fala mesmo em “viragem linguística” para caracterizar a recente tendência em considerar o conhecimento e o pensamento dependentes da linguagem. Tal “viragem” coincide com a viragem hermenêutica da filosofia. A corrente hermenêutica da filosofia supera a dicotomia sujeito-objeto e entende o conhecimento como um processo de interpretação, tendendo a sobrepor o conhecimento por apresentação ao conhecimento por representação e a sobrepor a “verdade” como manifestação à “verdade” como adequação.

Nesta nova perspetiva, a linguagem não se limita a ser uma mera cópia ou reflexo da realidade. A linguagem constrói fenomenicamente a realidade.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 00:51

09
Set 13

Salvador Dalí, A Persistência da Memória

 

 Eis que ele chegou, o nono mês do ano no calendário gregoriano, com a duração de 30 dias.

Deve o seu nome à palavra latina septem – sete – e era o sétimo no calendário romano, que tinha a particularidade de começar em Março.

Eis-nos chegados a Setembro e, com ele, chega em breve o outono no Hemisfério Norte.

É o tempo de a natureza se "despir", num movimento circular de eterno retorno ao mesmo.

Mas afinal, o que é o tempo? Como defini-lo?

Divisão da duração, momento?

Duração relativa das coisas que cria no ser humano a ideia de presente, passado e futuro?

Período contínuo e indefinido no qual os eventos se sucedem?

Certo período da vida?

Se ninguém me perguntar, eu sei – dizia Sto. Agostinho. Porém, se me perguntarem e eu quiser explicar, deixo de saber.

Trata-se, por isso, de uma realidade misteriosa.

Ninguém o pode agarrar – refere André Comte-Sponville – porque ele não para de fugir.

Se parasse um instante, tudo pararia, e deixaria de haver tempo.

Mas também não haveria mais nada.

Deixaria de haver movimento e repouso.

Sem o tempo, deixaria de haver presente.

Como poderia haver alguma coisa? interroga-se Comte-Sponville.

Com efeito, para podermos experienciar qualquer facto, para o podermos apreender, conhecer, temos necessidade do tempo que funciona, como explica Kant, como condição a priori de todos os fenómenos.

D. Sebastião morreu.

Quando? Onde?

Em 4 de Agosto de 1578, para os lados de Alcácer-Quibir, tendo deixado um reino sem coroa e à deriva.

Espaço e Tempo são as condições de captarmos e configurarmos a realidade.

São as duas "formas a priori da sensibilidade", para usar a terminologia kantiana.

Por isso, o tempo é, para nós, o horizonte do ser.

Ser é ser no tempo.

“Tudo volta ao nada. Tudo perece. Tudo passa. Só há o mundo que fica. Só há o tempo que dura”, reflete Diderot.

Mas a pergunta inicial persiste: o que é o tempo afinal, que só passa na condição de permanecer, que só permanece na condição de se escoar?

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 20:57

03
Set 13

Paul Joseph Goebbels, Ministro da Propaganda Nazi

Como faz notar Pedro Laín Entralgo, uma das notas especificamente humanas que podemos discernir no desempenho da sua conduta e que mostram que o ser humano é qualitativa e essencialmente distinto do animal é a linguagem.

Somos seres dotados de linguagem. A voz humana é o veículo privilegiado de valores que ultrapassam a simples sensibilidade individual e que possibilitam a organização de uma vida em comum.

Por isso, para Aristóteles a linguagem é atravessada pela dimensão política.

Quando configurada em discurso, a linguagem pode servir para informar, exprimir sentimentos e emoções assim como para convencer ou persuadir. Neste sentido, podem distinguir-se o discurso informativo, essencialmente centrado no objeto, o discurso expressivo, centrado no sujeito e o discurso argumentativo ou persuasivo.

Sem desprimor pelas restantes formas discursivas, o discurso argumentativo revela-se fundamental na configuração da experiência convivencial.

Alguns autores – Michel Meyer, Questões de Retórica – salientam a sua importância e o seu papel referindo que “a retórica renasce sempre que as ideologias se desmoronam. Aquilo que era objeto de certeza torna-se então problemático e é submetido à discussão”.

Vemos aqui a articulação da argumentação e da retórica com a democracia.

Não significa isto que nos sistemas políticos não democráticos não exista argumentação e retórica.

Todavia, nestes sistemas o uso da retórica é essencialmente exercido no sentido da manipulação.

Wayne Brockriede – Arguers as Lovers – servindo-se de uma metáfora sexual, distingue, em termos de argumentação, entre o violador, o sedutor e o amante.

Em relação à atitude, o violador não se interessa pelo assentimento. Interessa-se pelo poder.

Analogamente ao violador, na manipulação há uma relação unilateral entre os participantes.

O interlocutor é visto como uma presa a ser manipulada, como um ser inferior, como um objeto.

Porém, argumentação e retórica não são intrinsecamente manipuladoras.

Como sustenta Michel Meyer – op. cit. – o seu uso é que pode ser diferenciado.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 01:08

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