Este pretende ser um "espaço" público de partilha de ideias, um espaço de comunicação...

29
Abr 09

 

  O mundo para Schopenhauer é o teatro do pecado, do sofrimento e da morte, no qual não há heróis e no qual o optimismo resulta ser um personagem estranho ao argumento. O mundo é pensado como um grande palco em que a representação que aquele oferece encerra em si um carácter trágico e dramático.

  A arte porém, afigura-se como um dos possíveis caminhos de libertação da aparência e do vazio em que o homem teima em estar enclausurado. Na contemplação de uma obra de arte, seja ela a música, a poesia, as artes plásticas, o homem eleva-se acima da sua personalidade, da sua individualidade, escapa à corrente instável dos fenómenos e renuncia ao conhecimento ligado ao princípio da razão.

  O artista ao emprestar-nos os seus olhos para observar o mundo, reconforta-nos das paixões e das necessidades, dos desejos e das misérias do querer.

  A música é considerada, por excelência, a verdade da arte, porque está para além das fórmulas da representação. É a arquitectura da intensidade. É a intensidade da Vontade. Esta Vontade é una e indivisível, porque a vontade segmentada resulta a luta de vários desejos e consequentemente a agressividade entre os indivíduos. O mundo é dor e sofrimento, fruto da obra do próprio homem. Só a contemplação estética o levará a fugir da infelicidade mundana.

  O escutar de uma peça musical eleva-nos para algures no infinito, para lá das aparências. Uma melodia musical pode-nos revelar o sentido mais íntimo das coisas e dar-nos a percepção de todos os acontecimentos possíveis, isto é, dá-nos o todo. Ao mesmo tempo que nos eleva à contemplação de tudo o que existe na sua unidade, dissolve o nosso eu e anula todo o sofrimento e dor próprio do mundo fenoménico.

  Enquanto que as outras artes falam de sombras, a música, pelo contrário, fala do ser. O mundo poderia designar-se como uma incarnação da música, daí que se compreenda porque é que um quadro, uma cena da vida ou a leitura de um poema se forem acompanhados por uma melodia musical, alcancem um sentido mais elevado. A música, como linguagem eminentemente universal, exprime de uma forma única, através dos sons, com verdade e precisão, o ser e a essência do mundo.   
Fonte - "O Mundo como Vontade e Representação"  e "Dores do Mundo"  de Schopenhauer 
                                              
Já agora sugiro que se escute o tributo que foi feito à nossa Amália, por alguns dos nossos artistas - The Gift, Plaza e Moonspell
 
publicado por Carlos João da Cunha Silva às 20:29

 

«A questão fundamental da ciência e da técnica contemporânea não é, pois, a de saber donde poderemos nós ainda tirar as quantidades de combustível e de carborante que necessitamos. A questão decisiva é: de que maneira poderemos nós dominar e dirigir essas energias atómicas, cuja ordem de grandeza ultrapassa toda a imaginação, de maneira a garantir que elas de um momento para o outro, e mesmo sem ser num acto de guerra, não nos escapem por entre os dedos e tudo destruam. (...) As organizações, aparelhos e máquinas do mundo técnico tornaram-se indispensáveis, mais para uns do que para outros. Seria insensato investir contra o mundo técnico e seria fazer prova de miopia querer condenar esse mundo como sendo obra do diabo. Nós dependemos desses objectos que a técnica nos fornece e que, por assim dizer, nos permitem aperfeiçoá-los incessantemente. No entanto, a nossa relação às coisas técnicas é tão forte que, em nosso entender, nos tornamos seus escravos. (...)

É possível dizer sim ao uso inevitável dos objectos técnicos e dizer não, de modo a que se impeça o monopólio, o falseamento, a deturpação e o esvasiamento do nosso ser. Contudo, se dizemos simultaneamente sim e não aos objectos técnicos, a nossa relação com eles não se tornará ambígua, incerta? Pelo contrário, (...). Admitimos os objectos técnicos no nosso mundo quotidiano e ao mesmo tempo deixamo-los de fora, quer dizer, deixamo-los repousar sobre si mesmos, como coisas que não têm nada de absoluto, mas que dependem de algo mais elevado que elas.»

HEIDEGGER, M.; Gelassenheit; Serenité in Questions III.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 19:40

26
Abr 09

K. Popper

A lógica de procedimento científico proposto por Popper está de acordo com o "modus tollens":

Hipótese → consequência

         Não se verifica a consequência.

            Logo, a hipótese não é verificada.

 

Nesta perspectiva, uma teoria ou hipótese nunca é comprovada, podendo, apenas, ser refutada.

Uma teoria científica aceita-se enquanto hipótese, enquanto mera conjectura, enquanto capaz de fornecer um quadro geral válido de inteligibilidade, não desmentido pelos factos.

Inerente a esta perspectiva refutacionista ou falsificacionista está a crítica de Sir Karl Popper ao procedimento indutivo, característico do método verificacionista. Com efeito, por maior que seja o número de observações particulares, não há justificação lógica para a sua generalização a todos os casos.

Se a hipótese é sempre um enunciado geral porque pretende ser a explicação para todos os casos da mesma espécie e se as consequências deduzidas da hipótese geral, com que se pretende validá-la, são sempre particulares, ao verificar-se ou comprovar-se a consequência, que é um enunciado particular, não se pode dizer que se compova a hipótese,  enunciado geral.

O raciocínio implícito no tipo de comprovação ou validação classicamente aceite nos meios científicos, a verificação, incorre na falácia da afirmação do consequente ou do ponens:

Hipótese → consequência.

       Verificação da consequência.

Logo, a hipótese é válida.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 19:05

23
Abr 09

 

 

Se Deus existe, a vida faz sentido.
Ora, a vida faz sentido.
Logo, Deus existe.

 

Inspector de circunstâncias:


                       P  Q    P→Q,   Q   ╞ P
                      1  1       1        1       1
                      1  0       0        0       1
                      0  1       1        1       0
                      0  0       1        0       0

= Inválido

 

Se Deus existe, a vida faz sentido.
Ora, Deus não existe.
Logo, a vida não faz sentido.

 

                      P  Q    P→Q,  -P  ╞ -Q
                      1  1       1        0       0
                      1  0       0        0       1
                      0   1      1        1       0

                       0  0       1        1       1

= Inválido

 

O silogismo hipotético condicional comporta dois modos válidos: o Modus Ponens ou ponendo ponens (pôr)

Se Deus existe, a vida faz sentido.
Ora, Deus existe.
Logo, a vida faz sentido.

 

                      P  Q     P→Q,  P   ╞ Q
                      1  1       1        1       1
                      1  0       0        1       0
                      0   1      1        0       1

                      0   0      1        0       0

= Válido

 

 e o Modus Tollens ou tolendo tollens (tirar)

Se Deus existe, a vida faz sentido.
Ora, a vida não faz sentido.
Logo, Deus não existe.

 

                       P  Q     P→Q, -Q  ╞ -P
                      1  1       1        0       0
                      1  0       0        1       0
                      0   1      1        0       1

                      0   0      1        1       1

= Válido

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 16:14

20
Abr 09

L´ ÁQUILA (mosteiro)

Cenário do filme "O Nome da Rosa", protagonizado por Sean Connery, sofre mais um abalo sísmico e por pouco não desaparece do mapa italiano.
O Enredo do Filme
Estranhas mortes começam a ocorrer num mosteiro beneditino localizado na Itália durante a baixa idade média. As vítimas aparecem sempre com os dedos e a língua roxos. O mosteiro guarda uma imensa biblioteca e poucos monges têm acesso às publicações sagradas e profanas. A chegada de um monge franciscano (Sean Connery), incumbido de investigar os casos, irá mostrar o verdadeiro motivo dos crimes, resultando na instalação do tribunal da santa inquisição. 
Um filme a rever.
publicado por Carlos João da Cunha Silva às 21:25

18
Abr 09

 

 

 

Se Deus existe, a vida faz sentido.
Ora, a vida faz sentido.
Logo, Deus existe.

Este argumento é uma conhecida falácia: trata-se da falácia da afirmação do consequente ou do "Modus ponens". 

Mesmo intuitivamente, isto é, sem recurso a inspectores de circunstâncias, apercebemo-nos da invalidade do argumento. Com efeito, da afirmação do consequente (a vida faz sentido) não se infere o antecedente (Deus existe).

Há ainda a considerar uma outra falácia em relação ao silogismo hipotético condicional. É a falácia da negação do antececente ou do  "Modus tollens" e comete-se quando se nega o antecedente no lugar de se negar o consequente. Assim, retomando o exemplo referido, se argumentássemos da seguinte forma -

Se Deus existe, a vida faz sentido.
Ora, Deus não existe.
Logo, a vida não faz sentido.

 - estaríamos a cometer um erro de raciocínio, ou seja, uma falácia.

O silogismo hipotético condicional comporta dois modos válidos: o Modus Ponens ou ponendo ponens (pôr)

Se Deus existe, a vida faz sentido.
Ora, Deus existe.
Logo, a vida faz sentido.

 e o Modus Tollens ou tolendo tollens (tirar)

Se Deus existe, a vida faz sentido.
Ora, a vida não faz sentido.
Logo, Deus não existe.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 23:37

11
Abr 09

Se Deus existe, a vida faz sentido.
A vida faz sentido.
Logo, Deus existe.

                                     Será este argumento válido?


Para determinar a sua validade precisamos de isolar a sua forma lógica. Para isso, começamos por representar as proposições que ocorrem no argumento com variáveis proposicionais:


                       P: Deus existe.
                       Q: A vida faz sentido.

  

                      Agora podemos representar a forma do argumento:


                      P→Q
                           Q
                      Logo, P


Finalmente, podemos determinar se esta forma lógica é valida ou não, separando as duas premissas com uma vírgula: 


                     P Q    P→Q,   Q   ╞ P
                     1  1       1      1      1
                     1  0       0      0      1
                     0  1       1      1      0
                     0  0       1      0      0

 

Sabendo que num argumento dedutivo válido é impossível as premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa, podemos constatar que a forma é inválida, porque há uma circunstância em que as premissas são verdadeiras e a conclusão é falsa  
       A Arte de Pensar, 11.º ano, Didáctica Editora (Adaptado )

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 18:13

08
Abr 09

Aqui fica a divulgação deste Cartaz para todos os interessados.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 01:01

03
Abr 09

A realidade compõe-se de indivíduos concretos, mas em que se revela uma natureza específica. Este homem com quem falo, além de ser João, individual e inconfundível, é homem: possui, pois, uma natureza que reparte com muitos outros. Aquela mulher, além de jovem, é bela.
Os conceitos homem e beleza são Conceitos ou Ideias Universais que colidem com a realidade composta por indivíduos concretos, mutáveis. 
Qual a natureza dos conceitos universais como Homem e Beleza? Terão alguma forma de existência?
                                               A Resposta de Platão
Quando digo que a Marina é bela, dou apenas um exemplo de beleza, antes do mais porque a Marina nem sempre foi bela e, com o tempo, deixará provavelmente de o ser. Contrastando com a transfiguração da Marina, a Ideia de Beleza, de “Beleza em si”, é uma entidade imutável que, neste momento, se encontra "dentro" da Marina. Digamos que a Marina "participa", em certo grau, da Beleza em si. Para Platão esta Ideia tinha, como, aliás, qualquer outra Ideia, uma realidade objectiva. Era uma entidade exterior que apenas podia ser “vista” com a mente.

Trata-se de uma solução radical, denominada realismo absoluto ou exagerado, por oposição ao nominalismo.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 00:45

01
Abr 09

“O papalagui (1) não pára de pensar. (…) Mas também ele próprio é objecto dos seus pensamentos (…). O papalagui pensa tanto, que o acto de pensar se tornou um hábito, uma necessidade, e até mesmo uma coacção. Vê-se obrigado a pensar continuamente. Só muito a custo consegue não fazê-lo e deixar viver todas as partes do seu corpo ao mesmo tempo. Na maior parte do tempo vive apenas com a cabeça, enquanto os sentidos dormem um profundo sono. Muito embora isso o não impeça de andar normalmente, de falar, de comer e de rir, permanece fechado na prisão dos seus pensamentos – os quais são os frutos da reflexão. Deixa-se, por assim dizer, embriagar pelos seus próprios pensamentos. Quando brilha um belo sol, logo ele pensa: “Que belo sol que está agora!” E continua a pensar, sempre a pensar: “Mas que belo sol!” Ora, isso é falso, absolutamente falso, é uma aberração, pois quando o sol brilha, vale mais não pensar em nada. Qualquer Samoano sensato irá estender e aquecer o seu corpo ao sol, sem reflexões. E goza do sol não só com a cabeça, mas também com as mãos, com os pés, com as coxas, com o ventre, em resumo, com o corpo todo.”          
(1) O Branco, o Senhor.
O Papalagui, Antígona

(Re)ler: Há Metafísica Bastante em não Pensar em Nada

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 00:09

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