Este pretende ser um "espaço" público de partilha de ideias, um espaço de comunicação...

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Jan 09

 

"A pergunta radical em torno da qual gira a ética não é: «Que devo fazer?», pois, para além dela, poderá sempre perguntar-se, como fazia Wittgenstein: «E que acontecerá se não fizer o que devo?», ou talvez: «Porque devo eu fazer o que devo?». O dever não é a última palavra ética, uma vez que também ele terá de ser, por seu turno, fundado: a suposição de uma Lei suprema maravilhosamente inscrita no coração humano e cujo respeito esgotasse a moral, não é, bem vistas as coisas, mais que uma transição maquilhada por Deus, sobre a qual assentam as morais religiosas heterónomas como Schopenhauer objectou com razão  a Kant. Outras posições, mais naturalistas e cépticas, propõem, como pergunta originária da ética, a de: «Que posso fazer?», supondo basicamente que o homem está muito mais condicionado e limitado nas suas opções do que tem por costume admitir, e a moral talvez não seja mais que a lucidez com que aceitamos seguir ... o único caminho possível. A versão mais sublime deste fatalismo racionalista é a formidável Ética de Espinoza. (...) Ora bem, há uma pergunta para além da qual deixa de ser possível seja como for continuar e na qual a ética assenta com toda a sua firme fragilidade: «Que quero fazer?» É do meu querer essencial, não de um querer parcial ou coisificado, mas do querer que radicalmente me constitui, que têm de brotar as minhas normas e os meus valores. O meu querer é o meu dever e a minha possibilidade: o dever é o que o querer funda; a possibilidade, o que o querer descobre. Enquanto dever, o querer reflecte sobre a sua essência própria - simboliza-se - e estabelece a via de mediação através da qual há-de realizar-se: formulação da lei; enquanto possibilidade, o querer afirma a não-identidade essencial do real e do necessário, a autenticidade autónoma - ainda que não independente - do homem como causa: a decisão eficaz.

O que quero, o que é? Chegar a ser eu plenamente, quer dizer, ser não-coisa, manter-me numa totalidade aberta na qual possa confirmar-me como autodeterminação, ou seja, como  criação e liberdade. Que devo fazer para conseguir? Ser reconhecido - identificado - por outro objecto infinito - por outro sujeito - que eu tenha, por meu turno, reconhecido como  tal.  Como posso consegui-lo? Instituindo uma comunidade de sujeitos da qual nenhum objecto infinito esteja por princípio excluído, na qual se firmem relações de reciprocidade explícita e autêntica, e que não restrinja nem vede a ninguém a realidade do possível."

 

SAVATER, Fernando; Convite à Ética; Fim do Século; Lisboa; 2008; pp. 31-32.

publicado por Carlos João da Cunha Silva às 11:12

Janeiro 2009
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